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" No Azul--qual uma esfinge--eu reino Indecifrada. " [Baudelaire]

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

E Os Deuses Não Esperam


[Imagem: Madonna, 1894-5 - Oil on canvas - Edvard Munch]

Acordas líquido no teu sangue sobre meu sangue de asas paradas
Acordas distante e próximo e cantas-me o cântico sem fundo
Cantar amigo inimigo cantar dobrado que desde a infância escuitei
E amo-te amo-te sem saber o objecto amado
Sem esquencer todo o óleo derramado em tuas mãos pesadas
De bens que não são os meus
E contudo tudo é amor incoerente e real que se reconhece
Sem coragem de romper os linhos de amanhã
E nâo te amo nâo nâo se ama esta ferida de mistério
Que se sente em já saudade de barro húmido
Lavrando no beijo a secura da humilde pele
E eu sei o que é amar e ser amada meus olhos limpos não dizem adeus
E os deuses não esperam.

[Matilde Rosa Araújo, in Difícil Amor]

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Poética

'Édipo e a Esfinge'
Pintura de Gustave Moreau - 1864



O verso sobretudo

Mas não apenas verso.

A página em branco

Mas nunca só papel.

A letra descarnada

Antes grávida palavra.

O ato – mítica caligrafia da palma da mão.


O som, o inaudível

Mas sempre quase ritmo.

O ruído da memória

Mas nada menos que sono.

A voz vibrando signo

Mas onde tudo grito.

O ar – úmido neurônio da canção.


A luz no entanto

Mas pouco mais que brilho.

O azul do astronauta

Mas não somente pássaro.

O arco da espessura branca

Mas quando muito o olho.

O umbigo – labiríntico berço da escuridão.


[ Eduardo Albuquerque © ]


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

TEMPO - TEMPO - TEMPO - TEMPO...

"Mãos Desenhando-se - Drawing Hands". Litografia de MC Escher - 1948 [http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/44760/]
...Tinha uma cor encerada.

E os seus olhos - quase sem brilho - cortinados pela trama do tempo muito alva.

Por entre os dedos, a caneta hesitava em sua escrita.

Faltava-lhe firmeza.

Inevitável relembrar o que outrora fazia-se tão hábil.

Quando pelo papel deslizava sob impávidos movimentos harmoniosos e orquestrados.

Nos lábios, um longo suspiro atroz.

E algum lamento emudecido.

Não vi seu sorriso... Já não o tinha mais?

Na testa, um franzir dos descontentes, entediados e descrentes. Na memória da carne, vestígios de amor ateu, marginal e persistente.

Nas paredes, seus inseparáveis e coloridos talismãs.

Aquele era o Tempo. Que, sem remorso, esvaia-se impiedoso por aquelas - por agora - tão imprecisas mãos.

O tempo personificado frente aos meus perplexos olhos. Olhava-me Ele com ares de irremediável vacilo, paúra terçã, vergonha absoluta.

Demudado num corpo de indecifrável, decadente e indelével Esfinge.

No entanto, apesar do tempo, apesar de tudo, Aquela Casa mantinha imaculado o seu frescor. E, mais ainda, íntegros os seus rastros, emblemas, odores e traços... Delineados no cheiro que tinha aquele quintal. No bolo de milho a assar. No Menino que indo buscar o jornal, deslumbrava-se com a chuva que colorida escorria pelo vitral. E com as carambolas que pousavam a pintar o enlodado chão.

A cozinha com aromas de alho, coentro, fermento e sal. Raios de lua refletidos à beira do portal. Estórias de 'Comadre Florzinha'. Sabiá em sua gaiola a cantar.

Meninas rindo à toa. Panos de prato no varal. Cachorro manco e amuado. Papagaio ranzinza e pornográfico. Restos de um Carvanal. Crônicas em tom Outonal.

'Dama da Noite' a repousar sob o sol.

A sombra do fruta-pão.

Aromas de alecrim.

Nuances da flor do jasmim.

Lamento de lavadeira misturado à água fria e sabão.

Máquina de coser faltando um pedaço.

Estilhaços esquecidos do passado.

O gosto que tinha a romã.

As rosas daquele jardim...

Percebi que tudo aquilo permanecia intacto, como se alheio à passagem do tempo.

Despedi-me. Ali, um pouco de mim ficou. Deixei-me. Eternizou-se.

Desci as escadas. Coração apertado, esfacelado, aos frangalhos... E nos meus olhos, tatuava-se, naquele instante, a incerteza de que nos veríamos de novo.

Marejei, foi inevitável.

Deixei a 'Casa de Dona Sinhá' com seu filho lá dentro guardado. Parecia um menino: franzino, irrequieto, acuado. Parecia que clamava ao tempo. Indagava-o.

Maldizia-o, inconformado.

[ Adriana Gil, in 'Ontem, em Visita a Um Grande Amigo do Meu Pai: ALEX' ]

domingo, 7 de agosto de 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Metade


Não é minha culpa se somos feitos assim,

metade contemplação desinteressada, e metade apetite.


[Czesław Miłosz, in Descrição honesta de si mesmo junto a um copo de whisky no aeroporto, digamos, em Minneapolis]


domingo, 31 de julho de 2011

Muito Além do Mar de Lanzarote...

- “ Se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho. Aos 63 anos, a minha segunda vida começou. Não posso queixar-me. As coisas que você considera importantes não são tão importantes. Eu ganhei um Prêmio Nobel. E daí? “

[José Saramago]

Ah, Saramago, bem-aventurados - e amados - os que permitem-se uma segunda vez...

Hoje, em um domingo muito azul e sob o sol dos Trópicos, eu, aos meus 37 anos - um ano a mais do que tinha Pilar ao apaixonar-se por Saramago - depois de muitos desejos e desencontros, consegui, por fim, assisti ao filme, ‘Jose & Pilar’. E, não resta dúvida, trata-se o filme de uma belíssima e emocionante Ode ao Amor.

O Mar da exuberante Ilha de Lanzarote fez-se palco para um dos mais arrebatadores amores de que eu já tive notícia em toda a minha existência.

Um amor que não se ofusca frente aos grandes e famosos enlaces da história. Dessa forma, o amor de José & Pilar, nada deixa a desejar se comparado aos ilustres amores. Sejam eles fictícios ou reais, que floresceram, por exemplo, entre Abelardo & Eloísa, Inês & Pedro, Romeu & Julieta, Orfeu & Eurídice, Sansão & Dalila, Ulisses & Penélope, Lancelot & Guinevere, Dante & Beatriz, Tristão & Isolda, Napoleão & Josephine, Jean Paul & Simone, Lennon & Yoko, Dali & Gala.

Pilar conheceu Saramago de maneira despretensiosa, com o objetivo de apenas tomar junto a ele um café e entrevistá-lo. O escritor foi ao encontro de sua futura amada em seu Hotel, onde, ao se olharem pela primeira vez - às quatro horas da tarde -, trocaram um cordial aperto de mãos e seguiram rumo ao Mausoléu de Fernando Pessoa, onde leram um fragmento do multifacetado Mestre.

Saramago e Pilar não contavam com as mil armadilhas da vida. Pois, a partir daquele encontro, sentiram-- à flor da pele e na carne viva--, que toda essa 'multifacetividade' não somente abarca e habita o âmago do ser de Poetas e Loucos.

A vida, algumas vezes, também traz consigo essas tais multifaces, de forma a fazer vir à tona toda a efervescência de um latente e borbulhante sentimento, que, sem reservas, transforma implacavelmente trajetórias e destinos. E assim a vida fez a Pilar e Saramago.

Às quatro horas da tarde, os relógios de Lanzarote pararam.

Nesse instante, consumou-se o encontro. O grande encontro. Quiçá, o infinito encontro.

Naquela tarde, o Tempo parava e rendia-se ao Amor.

Por esse motivo, todos os relógios na casa-museu de Saramago, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, marcam 4 horas da tarde.

Pois fora o momento em que Saramago via pela primeira vez a jornalista sevilhana, María del Pilar del Río Sánchez, o grande amor da sua vida, no ano de 1986.

E toda ‘Trama Neuronial’ pungente, dilacerante, resistente, vã e cortante, sucumbia frente à uma ‘Trama Arterial’, fulgurante e infinita.

José & Pilar já eternizados em sua Ilha, agora, perpetuam-se, sobremaneira e de definitiva e extraordinária forma, junto à Sétima Arte e no azul pulsante, ardente e profundo de minha retina.

~ Adriana Gil, in Submersos Devaneios Meus no Mar de Lanzarote.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Mar meu. Sopro teu.

Sopro Azul em Mar do Sul
Mar - inexplicavelmente - revolto
Mar meu Sopro teu
Sinto-te e plano
Voas - Voo - Voamos

~ Adriana Gil, in Submersos Devaneios Meus em 'Mar Arável',

Ao Mar (...), Este Azulado Regalo: http://www.youtube.com/watch?v=WGPyl0Z5vbU

Entrelaça-te...

No tempo exato da matéria, tento te tocar sem pressa, de muito leve e amiúde. Desejando entrelaçar-te junto ao meu corpo. O toque espessado e quente e contínuo e úmido, deixar-te-á, para sempre, tatuado em mim. O tempo é isso. O tempo somos nós. O resto, é sempre o silêncio que nos transpassa, fala e cala.

~ Adriana Gil, in Submersos Devaneios Meus em Ádria.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Encontro

Os outros eu conheci

por ocioso acaso.

A ti vim encontrar

porque era preciso.


[Guimarães Rosa]