"Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos. E reconhecem o abismo--pedra a pedra--anémona a anémona--flor a flor. E o mar de Creta por dentro é todo azul. Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto. Sem jamais perderem o fio de linho da palavra."
__A__Z__U__L__
" No Azul--qual uma esfinge--eu reino Indecifrada. " [Baudelaire]
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Quando a pupila contrai ao medo
E dilata ao te sentir
Eu juro - falo - canto
Que nunca, antes, te vi
E o coração pincela rara tela
Em sinuosos tons de 'Déjà vu'
Eu clamo - rogo - peço
Pra você me colorir
E o tempo que me interpela
acelera para eu prosseguir
Eu nego - arremesso - escalpelo
Tudo que até aqui senti
Mas a tatuagem é chancela
E inspirada foi por ti
Eu quero - sonho - desejo
O teu beijo antes de partir
~ Adriana Gil
Imagem: Chagall
domingo, 1 de janeiro de 2012
Soneto das metamorfoses
[Quando Adriana é Carolina...]
Carolina, a cansada,
fez-se espera
e nunca se entregou ao mar antigo.
Não por temor ao mar, mas ao perigo
de com ela incendiar-se a primavera.
Carolina, a cansada que então era,
despiu, humildemente, as vestes pretas
e incendiou navios e corvetas
já cansada, por fim, de tanta espera.
E cinza fez-se. E teve o corpo implume
escandalosamente penetrado
de imprevistos azuis e claro lume.
Foi quando se lembrou de ser esquife:
abandonou seu corpo incendiado
e adormeceu nas brumas do Recife.
[Carlos Pena Filho]
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
e assim você me vê:
mosaico segregado
pelo avesso arregaçado
lua nova invertida
dissolvida, inacabada
aberta e não casta
que orbita em sóis longínquos
de zinco
azulados
adornada por miçangas estrelares
e asteróides rutilantes
com lânguidos enfeites de um astro
desalmado - nacarado - apaixonante
que nem mesmo sei o nome
~ Adriana Gil
Imagem: Matisse
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
domingo, 11 de dezembro de 2011
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Resistir
Dobrar na boca o frio da espora
Calcar o passo sobre lume
Abrir o pão a golpes de machado
Soltar pelo flanco os cavalos do espanto
Fazer do corpo um barco e navegar a pedra
Regressar devagar ao corpo morno
Beber um outro vinho pisado por um astro
Possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.
[Joaquim Pessoa, in O Pássaro no Espelho]
A vida é combate, que os fracos abate, que os fortes, os bravos só pode exaltar!
I
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.
II
Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.
III
O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!
IV
Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!
V
E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.
VI
Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D'imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d'ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.
VII
E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!
VIII
Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.
IX
E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.
X
As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.
[Gonçalves Dias, in Canção do Tamoio - Natalícia]
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